PHDA uma meditação.

Como já disse antes, sou um PHDA.

O que se segue é uma meditação sobre o tema, deixarei a análise do seu valor e relevância para quem se considere capaz disso.

Como hiperactivo e pai de hiperactivos, para além do não menos importante papel de marido de uma hiperactiva, as “diferenças” esbatem-se e o meu ponto de vista será porventura menos baseado na percepção de como nos vêm e mais no como nos vemos.

Esta diferença de ponto de vista é importante porque me direcciona mais para o que nós somos e não para o que a sociedade acha que devemos ser.

Nós não usamos os nossos cérebros da mesma forma que os “outros”, raramente temos apenas uma ideia a correr, raramente estamos a pensar apenas em uma coisa, raramente prestamos atenção a apenas um assunto. Mesmo que esse assunto seja a coisa que mais gostamos, há sempre várias outras ideias a decorrer e nem sempre em segundo plano. Podemos estar a ler um livro, completamente absortos do que nos rodeia, enquanto planeamos o nosso dia de amanhã, vemos um programa de TV, saboreamos um chocolate e relembramos uma conversa que tivemos com um amigo.

Se alguém falar connosco nessa altura, vai ser necessário criar espaço para percebermos o que nos estão a dizer, para verbalizar uma resposta e eventualmente memorizar algum facto. O mais provável é dizerem-nos que não estamos a prestar atenção ao que nos dizem, quando o que estamos a fazer é exactamente o oposto, é a tentar não perder em que ponto do livro vamos, se deixámos cair o chocolate, se fizémos pausa no vídeo na TV e o que o nosso amigo nos dizia. Tudo ao mesmo tempo. Não estamos desatentos, estamos é atentos a tudo e mais alguma coisa e é este malabarismo de atenções que se torna muito difícil de manter por longos períodos de tempo.

Lembro-me dos meus tempos de escola em que ouvia as conversas da turma toda, ouvia o que os professores diziam, via o que se passava fora da janela e relembrava um livro ou filme enquanto estava a tentar copiar o que estava no quadro. Focar-me em apenas uma dessas acções era impossível. Como se tentasse agarrar areia, quanto mais esforço fazia para me focar numa delas mais as outras ganhavam preponderância. Ninguém nunca me ensinou ou orientou para esta contingência, pelo contrário, obrigavam-me, à força e pelo uso da força, a prestar atenção, como se não fosse isso exactamente que eu já estava a fazer. Para nós, concentração não é a capacidade de nos focarmos em apenas uma tarefa, mas sim a capacidade de manter todas as tarefas em que estamos envolvidos a funcionar e escalonar o uso da memória de curto prazo para manter “o fio à meada” e não nos perdermos em absoluto. Para os “outros” o método de trabalho, pelo que me dizem, é diferente. Não sei como é o deles, só conheço o meu.

É esta abordagem que eu entendo ser necessário mudar. Não creio que a problemática da PHDA seja do foro médico. Medicamentos que nos “ajudam” a manter o foco em apena sum assunto de cada vez, não é o que precisamos. Parece-me sim que necessitamos de treino para a aproveitar e melhorar as nossas capacidades de multitasking de forma a que obtenhamos melhores resultados independentemente do número de tarefas a que nos dedicamos a cada momento. Necessitamos de treino de memorização, mais do que concentração. Necessitamos que nos ensinem e treinem a sermos melhores no que já somos naturalmente capazes. No meu entender, isto não é uma tarefa para a medicina. Talvez caia na alçada da Pedagogia ou alguma outra que neste momento não me ocorre.

Queria também deixar claro que isto acontece mesmo que estejamos medicados, o único efeito da medicação é a redução do número de tarefas que temos a decorrer em cada momento. Isto provoca-nos insatisfação, uma sensação de “falta alguma coisa”, faz-nos sentir incompletos. Sim, durante o efeito da medicação, somos mais capazes na execução de uma única tarefa, mas ao longo prazo  vamos sentir e muito a falta dos recursos vastíssimos dos nossos cérebros.

Creio portanto que seja necessária uma avaliação completa do que é ser PHDA. Usar esses dados para elaboração de planos de trabalho individualizados, destinados não à integração mas à melhoria das nossas capacidades únicas e valiosíssimas. O recurso a medicação pode ser uma solução de curto-prazo para minimizar a ostracização e melhorar a interação social enquanto se inicia o treino e se estabelece o plano específico de cada um nós. Este plano tem de ser individual porque cada um de nós reage de forma diferente aos estímulos, cada um de nós os processa tanto em forma como em número diferentemente. Não é possível um tratamento único. Vai ser sempre preciso estabelecer estratégias personalizadas em função tanto do PHDA como do meio em que está inserido e dos estímulos que enfrenta.

Uma proposta que deixo aos pais de PHDA’s em idade escolar, é treiná-los desde o início da escola a fazerem os TPC na zona mais activa da casa. Com a TV ligada, música a tocar, pessoas a falar. Deixem os vossos filhos descobrir “como” manter a tarefa que têm de fazer na mais alta relevância, premeiem os esforços, ignorem as falhas. Não se esqueçam que relembrar continuamente as falhas dá menos vontade de tentar outra vez. De vez em quando perguntem-lhe alguma coisa sobre o que está a dar na TV, ou sobre a música que está a tocar. Sim, treinem as interrupções. Ele vai descobrir como lidar com isso, vai demorar, vai ser frustrante. Mas se persistirem ele nunca mais se esquece.

Isto é uma opinião pessoal baseada na minha experiência e análise, vale o que vale.

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2 thoughts on “PHDA uma meditação.

  1. Realmente acabou de descrever o meu filho…ele tem 12 anos, tem PHDA e segundo ele também é assim que ele se vê!
    O cérebro está sempre a trabalhar, ultimamente tem sido com o tema do infinito e dos números…pergunta-me que se o infinito não tem fim, como é que sabem que não tem fim, se ninguém lá conseguiu chegar!? Como sabem que é mesmo infinito?
    Mas fala comigo sobre este tema, enquanto estamos a jantar (que ele demora uma eternidade a comer), a levantar-se e sentar-se da mesa 20 vezes durante a refeição, a ir ao wc, a ouvir uma notícia que entretanto aparece na tv…e ao mesmo tempo estamos a falar sobre o infinito, ou a morte, que também é um tema que ele fala desde muito pequeno…quer dizer, ele fala, eu tenho mais o papel de ouvinte, pois muitas vezes já não tenho capacidade de argumentação com ele!
    Por vezes pergunto-me como é possível aquele cérebro ter a capacidade de pensar em tantas coisas tão diferentes ao mesmo tempo e não se passar!!!
    E depois dizem que está no mundo da lua…eu já disse a vários professores que tomara eu ter a capacidade que ele tem, pois ele é feliz assim e dá gosto ouvi-lo falar sobre temas que na idade dele ninguém fala, temas que na idade dele não interessam… o engraçado é que tão depressa está a falar sobre o infinito ou a morte, como a meio fala da Nerf que quer comprar, ou do programa favorito…óbvio que eu perco o fio à meada e levo o tempo a perguntar: mas afinal já não estamos a falar do mesmo??? LOL
    É tão interessante vêr a forma como ele vê o mundo! Mas ao mesmo tempo ele também tem consciência da realidade, melhor que muitos!!!

    Seria muito interessante organizarmos um encontro só de PHDA, tanto para quem a tem, como para quem vive com eles!
    Onde se pudessem trocar vivência e experiências!!
    Não acha?

    Diana

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