PHDA, expectativas e os SE desta vida…

Sou um PHDA…

Se não sabe o que é, continue a ler…

PHDA é Perturbação de Hiperactividade e Deficit de Atenção. Sim, sou um daqueles tipos que não consegue ficar quieto nem estar muito tempo a fazer a mesma coisa. Sabem, um daqueles que passou a porra da infância a levar chapadas porque não se portava bem. Não que as chapadas resolvessem fosse o que fosse, era mais para aliviar quem as dava que para ajudar quem as recebia. No meu tempo, ah a velhice começa com estas palavras, não havia Ritalinas e Concertas e quejandos, não, o que havia e de sobra era palmadas, chapadas e promessas de sovas de cinto. A única real diferença é que as Ritalinas e afins têm uma duração maior.

Entretanto lá cresci. Agora, dizem, sou um adulto e as chapadas são outras.

Entretanto vou lendo por todo o lado que SE os PHDAs SE mantivessem atentos eram os maiores da cantareira… De uma das vezes deu-me para responder assim:

“Ela não é má aluna… se estivesse concentrada na escola seria até excelente…”
No meu entender, muito pessoal entenda-se, é este a base do problema da maioria dos pais de PHDAs, o SE.

Meus caros/as, não há nenhum SE. A única coisa a fazer é ajustar as expectativas. Pois, eu também vivia melhor SE me saísse o EuroMilhões. Como diz a vox populi, SE a minha avó não tivesse morrido ainda hoje estava viva.

Vejo este problema continuamente, seja aqui, em conversas no café, nas reuniões com os professores, em todo o lado. Sempre o malfadado SE. Os nossos filhotes não têm culpa das expectativas que colocámos neles. Não têm a obrigação de cumprir os sonhos de ninguém a não ser os deles, não têm de ser melhores que ninguém a não ser eles mesmos. No entanto, avaliamo-los segundo critérios que não são justos para eles. SE estivesse atento era o melhor aluno, SE escrevesse de forma que se lesse copiava tudo do quadro, SE decorasse a tabuada tinha boas notas, SE estivesse quieto não incomodava ninguém. Já todos dissémos e pensámos isto, somos TODOS culpados.

O facto é só um, eles não vão ficar mais atentos, eles não vão escrever melhor, não vão decorar e não vão ficar quietos. E não vão porque não querem, apenas porque não podem. É o mesmo que agora alguém vos exigisse que mudassem a cor dos olhos ou a altura das pernas.

Ajustem as vossas expectativas ao que os vossos adorados “diabinhos” SÃO, não o que alguém desejaria que ele/a fosse, seja quem for esse alguém.

Entendam que eles têm limites, entendam que eles têm capacidades, respeitem ambas.

Vamos por os “peixes” a nadar e deixar as árvores para os “macaquinhos”, tá bem?

Sempre a mesma treta, sempre a mesma conversa… SE o meu gato fosse um cão, ladrava.

Vamos lá a ver se a gente se entende, é muito bonito dizer, ah e tal SE fosses mais alto não eras tão baixo, pois como SE fosse eu que mandasse no crescimento das pernas. É exactamente o mesmo com os PHDA, nós não fazemos como os outros, PORQUE não somos como os outros. Não se trata de educação, não se trata sequer de medicação, os nossos cérebros, excelentes diga-se, trabalham de maneira diferente. Não, não servimos para tarefas repetitivas, não, não somos bons para decorar resmas de papel (se fosse para decorar eram de uso único), não, não somos capazes de estar anos a fazer o mesmo. Mas, dêm-nos uma tarefa criativa, dêm-nos espaço e liberdade para melhorar os processos repetitivos, dêm-nos liberdade de consulta em vez de nos pedirem que decoremos, e vão ver a diferença.

Em vez de nos exigirem que sejamos o que nunca seremos, dêm-nos antes espaço para sermos o que somos e adoramos ser.

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5 thoughts on “PHDA, expectativas e os SE desta vida…

  1. E mesmo assim. Fartamo-nos de tarefas repetitivas, de preencher papeis e mais papeis. Mas na originalidade e na inovação somos únicos. Crescemos a ouvir que não aprendemos nada, que somos maluquinhos. Mas gosto da minha maluquice, gosto de ser original, de ser alegre, positiva e não me conformar perante a vida e não desesperar perante os problemas. Dou a volta por cima e com um sorriso no rosto. Gosto de como sou e do que faço. gosto da vida.

  2. Adorei o artigo. Tenho um filho com PHDA e a minha postura tem tudo a ver com isto. A minha única preocupação é que o meu filho encontre o seu caminho de forma a ser feliz e que encontre maneira de fazer o que gosta e aquilo para que tem jeito. E tentar para que os educadores e professores percebam que é assim que tem de ser!!! ;-D

  3. É muito interessante a forma como colocar as coisas, mas não concordo inteiramente.
    Não concordo com as estratégias que enucia, quer as do passado – porrada , quer as dos presente – ritalinas e afins. Mas acima de tudo não concordo com a postura do “não há nada a fazer”. Porque há!

    É verdade, a PHDA é fruto de um cérebro muito atrapalhado. Mas o nosso cérebro é um orgão e o seu funcionamento pode ser otimizado. Como? Com a alimentação, por exemplo. Para a PHDA o site http://www.feingold.org tem muita informação e com pequenas alterações ajudamos os cérebro a ficarem menos agitados.

    Os processos de atenção não são tão simples de consertar, mas também se faz … normalmente com um equilibro entre os omegas 3 e 6 (o problema central é que o 6 abudam e o 3 nem por isso).

    Gosto ainda da neuroterapia (www.ipneuroterapia.org) que funciona assim como uma desfragmentação ao disco de um computador.

    Outra estratégia é o EmWave, da Hearthmath que permite com um pequeno aparelho aprender a acalmar, aprender a utilizar o sistema cardiorespiratório para mandar no cérebro!

    Mais uma? Os livros do Paulo Moreira sobre o Irre e o Quieto, que ensinam a ser forte e a derrotar o Irre!

    Posso dizer que tenho uma criança com PHDA (ou tinha PHDA) que está controlado, que na escola tem um desempenho bom. Mas, claro, dá trabalho! Requer tempo e atenção. E muitas, muitas regras … porque até fazer xixi é complicado … porque se esquece. Então é uma questão de sistematizar, de associar o xixi a sair da sala de aula, depois das refeições, etc. Criei com ele uma lista de tarefas que afixamos em casa e que o ajudam a organizar-se. E temos muitos, muitos, muitos momentos de reforço positivo, de mimo!

    A ideia de que um pai ajuste expectativas é péssima do ponto de vista da criança… é desistir dele! Que feio!

  4. Tudo o que diz pode ser realmente muito útil. Se se partir do pressuposto que é preciso corrigir ou consertar seja o que for.
    Não acho que haja seja o que for a corrigir. O que há é que aceitar as diferenças e as realidades de cada um. A sua opção de “curar” o seu filho mais não é que uma recusa em o aceitar como ele é. Ninguém está contra isso. Não quer que ele seja assim e tratou de o “consertar”.
    Na, minha opinião, e repito, minha, nem eu nem os meus filhos precisamos de conserto. Precisamos sim de aprender a ser nós mesmos. A sermos funcionais e capazes. A sermos o melhor que podemos ser. Não para os outros, mas para nós mesmos.

    Divergimos na abordagem. Ainda bem.

    Eu não desisti, nem nunca desistirei dos meus filhos. O meu objectivo é que eles sejam felizes. Seja no que for que eles queiram fazer. E eles têm capacidades múltiplas para serem o que quiserem.

    Desejo-lhe boa sorte.

  5. Excelente, dos melhores artigos que já vi por ai sobre este assunto. Acho que já está na altura de se perceber, que o ser humano não é todo igual, não pensamos da mesma maneira, não agimos da mesma maneira e que isso é coisa mais maravilhosa que existe. Se não fosse por sermos diferentes, não seriamos capazes de andar para a frente. Está na altura de nos adaptarmos e dar a estas pessoas as ferramentas necessárias para que elas, à maneira delas, façam coisas fantásticas. Temos de perceber, que não são as pessoas que tem de se adaptar para encaixar nas instituições, mas antes, são as instituições que tem de evoluir para acompanhar o desenvolvimento e as necessidades de cada ser humano.

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